Os ventos de Dylan ou um esboço sobre o crescimento
Há dois anos atrás escutei religiosamente (e de forma cronológica) toda a obra de Bob Dylan.
E desde então sinto muita vontade de escrever minhas impressões pessoais sobre os seus álbuns, letras e melodias.
Mas sempre me contenho a tal emoção por não acreditar que qualquer obra artística precisa ser explicada ou engessada dentro da limitada visão de alguém.
Assim, esse desejo transbordou e secou constantemente várias vezes, e até cheguei a resenhar algumas coisas aqui e ali, mas minha posição em relação a toscos reviews continuava forte e intacta dentro de meu espírito.
Bom… até agora.
E para isso, me atentei em algumas simbologias (as que eu consegui identificar) que aparecem em algumas das canções de Dylan, e mesmo na escassez de um inglês primoroso, tentei fazer analogias que coubessem perfeitamente em meu limitado entendimento sobre vida e arte.
E ainda que as canções que mais me tocaram sejam, em sua grande maioria, datadas de algumas muitas décadas atrás, elas exibem certa intimidade com a minha contemporaneidade e exploram temas universais que estão presentes nas mais diversas relações que estabelecemos no decorrer da vida.
O ponto em comum usado por todos que escrevem sobre Bob Dylan, é a sua capacidade de se reinventar; tanto em sua postura ideológica como também em seu discurso.
E eu, que prezo pelo óbvio, também falarei desse tal aspecto, mas ressaltando o amadurecimento pessoal como um forma de autoavaliação da nossa existência (condição humana) perante as “exigências” que as cercam.
Para começar a traçar minha linha de raciocínio sobre o criador, obra e vida, foquei em duas datas específicas: 1963 e 1975.
Mas para isso precisaremos nos contextualizar:
Década de 60, os EUA já fazendo o que sabem fazer de melhor (e não era hambúrgueres, mas sim guerra), e lá estava ele, quase como um novato em Nova York, Robert Zimmerman: violão sempre nas mãos, cigarro nos lábios e um ouvido muito treinado com as antigas progressões harmônicas de canções populares norte-americanas — tudo isso somado a muito blues e poesia beatnik.
É bastante relevante começar a destrinchar a importância de certos simbolismos e a elaborar, em um primeiro momento, uma imagem mais concreta sobre alguns fatos em relação ao poder lúdico do cancioneiro folk de Bob Dylan.
Por isso, ainda nas primeiras gravações Dylanescas, temos que lembrar que estamos ouvindo um homem recém chegado à vida adulta, que presenciava uma guerra internacional e toda uma ascensão dos direitos civis e raciais em seu país, ok?
No filme “I’m not there”, dirigido por Todd Haynes, que retrata a vida de Bob Dylan em vários momentos diferentes, através de personagens que representam os traços mais marcantes da sua personalidade, acontece uma cena icônica que pode me ajudar a dar o start na ideia central desta resenha.
Uma mulher negra fala o seguinte conselho a um pequeno trovador, também negro, conhecedor dos mais belos e antigos blues, que está de passagem por sua casa: “Cante sobre o seu tempo!”.
Essa frase talvez seja a síntese de toda a obra de Bob Dylan e uma forma de também o reconhecer como um espécie de cronista dos anseios contemporâneos.
Pergunta 1: Mas o que seria a angústia para Bob Dylan?
Já na introdução do poema “Howl” (O Uivo, em português), do ano de 1958, é descrito muito bem o medo e ansiedade que aquele tempo obscuro causava, principalmente, nas gerações mais jovens.
Allen Ginsberg, autor da obra, retratou em versos crus que os “expoentes de sua geração” haviam sidos destruídos pela loucura, morreram de fome, histéricos, nus, arrastando-se pelas ruas atrás de uma dose violenta de qualquer coisa.
E é justamente essa “qualquer coisa” que consegue, na dureza das palavras, mostrar o abismo de dúvidas e incertezas em que todos estavam, incluindo o próprio Dylan, às vezes nem tanto metaforicamente, jogados.
E esperavam que essa tal coisa qualquer pudesse surgir como um sinal, ou uma salvação ou que quer que fosse, mas que pudesse de alguma forma clarear o abismo de escuridão que pairava naquela época.
Pergunta 2: E o que seria essa tal “luz”?
E foi no furor do mix de todos esses conflitos que Bob Dylan, com apenas 22 anos, escreveu alguns versos que tirariam do abstracionismo (não por completo) aquele sentimento de desilusão que assolava a todos.
Dylan lançava o seu segundo disco — o primeiro com a maioria de composições próprias, o tão aclamado “Freewheelin”.
E é neste ponto que surge a presença simbólica e de certa forma salvadora (podemos dizer assim também) de um certo elemento em relação a este período de trevas no qual os anos 60 estava estacionado.
Dylan usa o “vento” como uma forma de expressar a leveza em oposição ao clima pesado e cheio de significados imprecisos. Pois foi com a faixa “Blowin’ in the wind” que surgiram essas tais “respostas” ansiadas por todos daquela época.
Essa é a primeira imagem simbólica para se reparar e refletir por um certo tempo, pois aqui surge a representação de como é saber “as respostas” para as questões mais obscuras, entre outras coisas, na presença real/irreal que a ideia de vento trás.
“A resposta está nos ventos”, essa frase logo aponta duas conclusões: O vento, o ar, a brisa são elementos que estão em todos os lugares do mundo e talvez seja o único bem terreno que é compartilhado entre todos os seres viventes deste planeta.
E ele funciona como uma espécie de canal, na qual as respostas para a obscuridade daquele sentimento que vigorava nas décadas de 60/70 fossem acessível a todos.
E mesmo que os tempos fossem de total caos, e que as crises dificultasse as visões e esperanças, ainda sim, a existência continuaria intacta e sempre presente, revelando que, “as respostas” que tanto procuramos, é um dos únicos bens comum, no qual temos uma partilha democrática neste planeta.
Ela está em todos os lugares, porque a resposta é também a pergunta.
Complexo, né? Mas é esse movimento que de certa forma torna nosso ciclo da vida possível… O movimento constante entre as perguntas e as respostas talvez seja o que também contribua para todo o fluxo do que pode vir a ser o viver.
E assim como o vento, as respostas também são invisíveis, mas cada um pode senti-las de alguma forma, pois é assim que ela demonstra a sua existência; e livra a todos do sentimento pessimista que às vezes o mundo cultiva por ser carente de respostas concretas para suas mais diversas contradições.
Ou seja, essa imagem lúdica não precisa de definições sobre os seus porquês. Ela apenas cria um cenário em que todas as coisas que parecem distantes e impossíveis assumem sua existência; e estão entre nós, assim como os ventos.
E o refrão “The answer, my friend, is blowin’ in the wind” (As respostas, meu amigo, está soprando nos ventos), consegue se contrapor, e não só, mas também dar esperança para os “expoentes da geração” de Allen Ginsberg, deixando claro que o tal “qualquer coisa” existe e as respostas que eles procuram estão a tocar seus rostos.
A segunda impressão que surge sobre esse mesmo vento antes já citado, é como as respostas também são transitórias. São ventos ligeiros que mudam de direção e intensidade.
Não são constantes e às vezes podem causar estragos e danos, mas regulam e tornam possível a nossa existência.
E dá para a vida a seguinte definição: caótica e imprevisível, mas que mesmo assim contém alguma particularidade que a preenche de sentido.
E esse sentido só pode ser vivenciado pela nossa existência no agora que também é caótico e absurdo (e aceitar o absurdo é uma forma de preservar a vida, não é mesmo Albert Camus?).
Até agora destaquei um viés mais indefinido, sem forma própria, no qual o sentimento era generalizado e vivenciado por uma grande maioria.
Essa idealização ou incompreensão sobre a nossa existência e as dores que a acompanham está associada a um primeiro momento inicial da vida jovem/adulta, no qual os questionamentos adotam uma dimensão muito além do somente eu e procuram em todos os outros reflexos e nas representações de ideias outras perguntas que possam também definir o eu em relação ao todo.
E depois dessa fase primária de Bob Dylan, vamos direto a 1975. Aqui, as perspectivas tomam um outro ponto, pois, se antes o mundo interior era o ponto a ser considerado e estabelecia conexões com sentimentos coletivos aflorados pelos acontecimentos históricos, agora o contexto pessoal da vida de Dylan recebe maior destaque: a separação com sua mulher Sara.
Dito isso, aviso que agora a viagem é outra! Uma viagem voltada para o interior.
Porém, uma viagem interna é uma viagem externa também, pois conta com um amadurecimento sobre como o agora reflete em nossas interpretações pessoais dos fatos que nos surgem.
O olhar mais maduro caminha cada vez mais para o externo, onde os questionamentos não são sobre a posição que o mundo nos dá, mas sim a real posição em que nós existimos nele.
Assim, oprimeiro passo dessa jornada: invadir o disco “Blood on Tracks” e captar a faixa single do álbum “Idiot Wind” ou “Vento idiota”, para melhor desenvolver uma nova teoria do que pode vir a ser a representação, mais uma vez, do “vento”.
Bob Dylan, agora com 34 anos, lançava o seu décimo quinto álbum e saía em uma das mais inovadoras turnês de sua carreira, a “The Rolling Thunder”.
E é esse disco e essa sequências de shows que iluminarão o terreno de toda a temática setentista no qual estava envolvido o nosso misterioso judeu de Minessota.
A Netflix lançou recentemente (2020) um filme sobre a The Rolling Thunder, no qual percorre os caminhos entre o real e o fictício. Com alguns pontos das histórias mudados e atmosferas caóticas sobrepostas à realidade, deixando-a mais atraente, para que o público absorvesse o que verdadeiramente aquele momento representava.
Dylan estava fantástico no palco, exalava uma fúria com sua voz, com seus movimentos e com todo o seu figurino. Era como se uma espécie de exorcismo de si mesmo (do Dylan) fosse encenado durante as apresentações.
E é justamente nesse sentimento de “aceitação” do caos que está centrada a principal idealização dos novos tempos que enfim chegara (the time are changing mesmo!).
As tais “respostas” que todos ansiavam ainda na década de 60 foram, de certa forma, encontradas. Mas novas guerras, novos conflitos sociais, sempre chegam e com tais mudanças criam-se novas dúvidas nas cabeças dos sobreviventes do passado.
Mesmo antes do álbum Freewheelin, Dylan sempre esboçava a imagem da incerteza sobre todas as coisas. E a ideia de se fixar a algo, a uma ideia, era de longe o que ele mais tentava sempre se contrapor.
Por isso que aquele momento era o certo para enterrar o passado, mas celebrando-o. Com músicas antigas em novas roupagens, com músicas novas em versões desconhecidas.
E para Dylan era importante entender como ele havia chegado até ali, como as coisas haviam acontecido em sua vida. Era um momento de voltar o olhar para aquilo que já tinha sido. Voltar um ou dois passos atrás e rever de perto sua própria trajetória. Mas dessa vez como uma espécie de expectador.
Antes de mais nada, é nesse verso de Dylan que o tal vento exibe sua outra faceta:
“Vento idiota, soprando através das flores da sua tumba
Soprando através das cortinas no seu quarto
Vento idiota, soprando cada vez que você mexe os dentes
Você é uma idiota, baby
É um milagre que você ainda saiba respirar.”
O tal “vento idiota” é uma negação a si mesmo em um primeiro momento. O conflito estabelecido entre o antigo Dylan jovem e um Dylan maduro, consumido por algo ainda mais real.
Ele mesmo se coloca contra a parede: “Será que valeu a pena? Eu perdi minha mulher, caralho!” (nunca saberemos se ele de fato pensou isso ou se fui eu que tentei dar um pitada de drama).
Mas o que é certo de entender é que para o Dylan de 75, a dor da guerra ou das injustiças sociais não doíam tanto como a dor de perder um grande amor.
Mas o voltar para si é aceitar todas as decisões e conclusões que tais ventos trouxeram como escolhas no decorrer da vida. Mas Dylan sabe que uma hora, todas as responsabilidades e pesos de algumas decisões, de repente, iriam cair sobre os seus ombros, e mostrar que a transição inconstante da vida pode não ser eterna, mas que no final, ela até pode resultar em um algo concreto. O que pode ser positivo ou negativo.
A juventude cria pessoas cheias de ideais. E essas descobertas ainda frescas, sem forma aparente, tornam-se maleáveis demais durante a fase de construção de uma personalidade. O pessimismo niilista nega-se a si próprio mais uma vez com o passar do tempo. Pois o sentido da vida talvez seja a busca pelo sentido (o clichê: “a estrada é a própria felicidade”).
Mas para explicar a fundo esses tais fenômenos, devemos levar em consideração o nome do próprio álbum (Blood On Tracks) de Dylan e usar essa referência para descrever toda a concretude resultante dos acontecimentos cotidianos.
O “sangue está sobre as faixas”, porque é assim que as coisas nascem: com sangue, suor e sofrimento. E, talvez, compreender que a dor da existência também seja alguma espécie obscura de felicidade.
E não somente os acasos, como nos primeiros “ventos”, guiarão as direções de nossos pés. No final eles trilham caminhos com fins, que é onde vão estar os resultados de uma vida feita de escolhas. E é lá onde enfim há calmaria para além das estradas.
Mas o sangue, líquido vivo, também cria a imagem da morte do antigo e do nascimento de algo novo, pois depois de toda destruição há uma construção.
O sangue, que é a primeira substância que compõe a nossa matéria, está sobre essas faixas, que simbolizam a morte e o renascimento, o abandono da juventude e a aceitação da maturidade.
Em “Blood On Tracks”, Dylan está em reconstrução, surgindo para resinificar o seu próprio mundo e os símbolos que ele foi capaz de criar até ali.
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